quarta-feira, 13 de junho de 2018

PESSOAL | Vida em triângulo

Foi num Sábado à noite, aquando de um jantar ao ar livre que a conversa surgiu. Entre duas pessoas que vivem o mesmo: uma vida cá e uma vida lá. Partilhamos opiniões, situações, relações e chegamos a uma conclusão: vivemos uma vida em triângulo. Entre os dois pontos que não se cruzam e o espaço central que é comum aos dois! Mas, como adaptar-se a viver assim? 
Não estamos na mesma secção do emigrante [e com isto não estou a criticar quem quer que seja - que fique bem claro] que desembarca num novo país de malas aviadas. Não deixamos de ter casa no "outro" país e não trazemos a família connosco. Não nos "mudamos" para um novo país. Não passamos a ver o mês de Agosto como o mês do regresso ao país que deixamos. Porque, no fundo, nunca o deixamos. 
Eu continuo a ser a portuguesa que vive em França e ela a italiana que vive em França. Não passamos a facultar a nossa morada em França para a burocracia, não pagamos impostos aqui e não alteramos o nosso documento de identificação. Na rua, continuam a nos identificar como estrangeiras e enquanto assim for sabemos que não pertencemos - apenas - aqui! 
Digo apenas porque temos a noção de que, inevitavelmente, com o passar do tempo construímos uma vida no país que nos acolhe. A França foi o país que escolhemos para viver uma experiência no estrangeiro e não nos arrependemos disso. Aqui criamos laços com pessoas que passam a fazer parte das nossas vidas. Amigos que se tornam família pela necessidade de encontrar um porto-de-abrigo quando estamos longe dos nossos. Aqui criamos memórias e rotinas. Passamos a correr no parque da cidade, passamos a ter uma padaria preferida e relembramos aquele café como o local onde vivemos algo que nos marcou. Aqui passamos a ter também aqueles que são "nossos". E, num abrir e fechar de olhos, sentimos que temos duas vidas. Dois espaços que, para nós, nos completam mas que, para os demais, chega a ser irrelevante. 
Não vou generalizar porque cada uma de nós tem, nas suas vidas, pessoas que entendem estes dois lados da mesma moeda, mas nem sempre é fácil. Há momentos em que precisamos de pensar e separar o que contar sobre as nossas vidas e a quem. Não podemos simplesmente chegar aos nossos países - e digo nossos! - e começar a contar as aventuras que cá vivemos sem reflectir sobre o sentido que isso tem para as pessoas que nos ouvem. Porque, na maior parte das vezes, aquilo que contamos não tem todo o enredo montado. Os amigos de cá não tem rosto, as ruas descritas não tem cores, as situações não tem cheiros e barulhos. Para eles, é simplesmente um silêncio e acredito que seja difícil imaginar aquilo que nós, teimosamente, temos vontade de contar. E, se escrevo sobre o quão difícil é levar o que é vivido cá até lá é porque sentimos na pele que esse caminho é também mais duro do que o contrário. Não porque aqui tenhamos a capacidade de "entender" melhor a vida de cada um no seu país do coração, mas sim porque a necessidade de partilha é muito maior quando lá chegamos. Porque é aqui que vivemos e é lá que queremos contar.
A verdade é que tudo isto é uma longa aprendizagem. Entender e aceitar que aquilo que para nós é algo fantástico, para eles, que nos ouvem, não vai ter o mesmo impacto. Porque entre os quilómetros que separam estas nossas duas vidas, há muita informação que se perde! Mas, também é óptimo quando do outro lado, há um esforço para entender aquilo que nós gostamos e precisamos de partilhar com eles. Porque, por muito que vivamos aqui as emoções, é tão reconfortante saber que os de lá poderão fazer o esforço de vibrar da mesma forma que nós. 
Não nos arrependemos de ter estas duas vidas. Não nos questionamos sobre como seria se nos tivéssemos deixado apenas por lá, visto que partir foram decisões tomadas por nós! E, no final, aquilo que acumulamos de positivo destas duas formas de viver é muito, mas muito mais, do que o negativo. Afinal, somos as sortudas que têm, nas suas vidas, duas casas, duas "famílias" e dois países que amamos de coração. Somos cidadãs do mundo que aprendemos a partilhar na medida certa e no local preciso. Um dia, após o outro...