25 de agosto de 2015

Lê-se por aí...


(...) "Não se pode ter muitos amigos e mesmo os poucos amigos que se têm não se podem ter tanto como nos apetecia. Para não passar mal, aprende-se a economia da amizade, ciência um bocado triste e um bocado simples que consiste em ampliar os gestos e os momentos de comunidade para compensar os grandes desertos de silêncio e de separação que são normais. Como por exemplo? Como, por exemplo, abrir mesmo os braços e da mesmo um abraço. Dizer mesmo na cara de alguém: «Tu és um grande amigo» e ser mesmo verdade. Acho que não é de aproveitar todos os momentos como se fossem os únicos, porque isso seria uma forma de paixão, mas antes estarmos com os amigos, nos poucos momentos que se têm, como se nunca nos tivéssemos separado. A amizade é uma condição que nunca se pode ser excepcional. Tem de ser habitual e eterna e previsível. E a economia dela nota-se mais quando reparamos que, sempre que não estamos com os nossos amigos, estamos sempre a falar deles. É bom dizer bem de um amigo sem que ele venha a saber que dissemos. E ter a certeza que ele faz o mesmo, pensando que nós não sabemos." (...) 

Os meus problemas | Miguel Esteves Cardoso | página 55